Manipulados
25 de junho de 2007
Dizem-me alguns doentes que os manipulados deixaram de ser comparticipados, de todo. Alguém teve já a experiência?
Que fazer?
O Criança e Rim é um grupo informal de crianças, jovens, pais, familiares, amigos, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que, direta ou indiretamente, convivem com as doenças renais.
Este blog é utilizado para divulgar informações, notícias, histórias, experiências e testemunhos entre outros, que interessam aos participantes do Criança e Rim em particular e a toda a comunidade em geral.
Dizem-me alguns doentes que os manipulados deixaram de ser comparticipados, de todo. Alguém teve já a experiência?
Que fazer?
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Helena Jardim
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Para os mais cépticos a propósito da utilização das células estaminais (do cordão umbilical), aqui fica um exemplo, bem real, da utilização destas células para salvar a vida de uma criança.
Foi realizado o primeiro transplante com células estaminais do sangue do cordão umbilical, criopreservadas num banco privado português. A operação realizou-se com uma criança de 14 meses, em Fevereiro deste ano, cujos pais tinham guardado o sangue do seu irmão na Crioestaminal. O IPO do Porto recorreu às células quando foi diagnosticada à criança uma imunodeficiência combinada severa (SCID).
Este é um grupo heterogéneo de doenças raras, caracterizadas por deficiências no sistema imunitário, o que torna os doentes mais susceptíveis a infecções graves, muitas vezes recorrentes e eventualmente fatais. A solução neste caso passava por um transplante de células estaminais do sangue do cordão umbilical, ou da medula, o qual seria bastante doloroso e com riscos para o dador. Os pais da criança tinham criopreservado o sangue do cordão umbilical do seu irmão, e estão neste momento felizes pelo facto do seu filho estar a recuperar bem.
Devido ao débil sistema imunitário, esta criança, natural de Coimbra, manifestava episódios recorrentes de infecção que foram sendo provisoriamente controlados recorrendo a tratamentos com antibióticos e imunoglobulinas. O diagnóstico final indicava redução significativa e quase ausência de linfócitos CD8 em circulação, que poderiam levar à morte da criança. O transplante foi então realizado com sucesso, num contexto heterólogo - ou seja, a partir das células estaminais de outra pessoa, neste caso do irmão - e a criança tem registado melhorias significativas.
Para perceber melhor este caso, poderá visualizar uma reportagem emitida no Jornal da Noite da SIC em http://expresso.clix.pt/Multimedia/Interior.aspx?content_id=399526.
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Vanda Ferreira
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No dia 13 de Março colocámos uma questão, relativamente ao facto de o medicamento "Becozyme - xarope", da Bayer, essencial às nossas crianças insuficientes renais, se encontrar esgotado. Recebemos a resposta da Bayer, informando-nos que a situação seria reposta após o Verão de 2007. Entretanto, tivemos informação que havia um substituto, dos Laboratórios Basi. Enviámos um e-mail para estes Laboratórios, tendo recebido a seguinte resposta da Dra. Catarina Cardoso, Directora Executiva/Farmacêutica da Phagecon:
Exmos. Senhores,
A Phagecon, como empresa responsável pelos assuntos regulamentares e científicos dos Laboratórios Basi, vem desta forma clarificar as questões relativas ao estatuto legal do produto “Complexo B”.
Gostaria de esclarecer que actualmente o Complexo B não é um medicamento, mas sim um suplemento alimentar. A informação que está disponível no sítio do INFARMED é relativa a dois medicamentos antigos dos Laboratórios Basi que foram entretanto revogados.
Neste momento, os Laboratórios Basi têm disponível no mercado um suplemento alimentar sob a forma de xarope, denominado “Complexo B”.
Os suplementos alimentares estão regulados pelo Decreto-Lei n.º 136/2003, de 28 de Junho, que define suplemento alimentar como: “Géneros alimentícios que se destinam a complementar e/ou suplementar o regime alimentar normal e que constituem fontes concentradas de determinadas substâncias nutrientes ou outras, com efeito nutricional ou fisiológico, estremes ou combinadas, comercializados em forma doseada, tais como, ampolas de líquido, frascos com conta-gotas e outras formas similares de líquidos ou pós, que se destinam a ser tomados em unidades medidas de quantidade reduzida, fixando normas relativas ao fabrico e comercialização, nomeadamente quanto às quantidades de vitaminas e minerais.”
Desta forma, apesar de não ser medicamento, o “Complexo B” corresponde exactamente ao que as crianças necessitam, pois permite complementar as quantidades de vitaminas ingeridas na alimentação e supri-las com as quantidades necessárias para as diversas funções fisiológicas.
O “Complexo B” pode ser adquirido directamente nas farmácias e nos estabelecimentos autorizados para venda de medicamentos não sujeitos a receita médica ou então, através do distribuidor autorizado dos Laboratórios Basi, a empresa FHC Farmacêutica Lda.
Colocamo-nos desde já à disposição para qualquer esclarecimento adicional.
Com os melhores cumprimentos,
Catarina Cardoso
Directora Executiva/Farmacêutica
Phagecon
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As crianças com doenças crónicas têm agora a possibilidade de ver os seus sonhos realizados com a ajuda de uma associação de solidariedade social especialmente criada para o efeito. A Terra dos Sonhos é um projecto de solidariedade único em Portugal, que procura criar momentos de alegria a crianças com doenças crónicas, ou em fase terminal, de forma a melhorar o seu estado de espírito.
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Muitas são as razões que temos para nos orgulharmos do representativo contributo dos portugueses para os avanços da medicina e da saúde no mundo. Mais uma notícia para juntar ao vasto rol nestas áreas.
Sabemos no entanto que, nestes domínios, o tempo que medeia entre "a descoberta e invenção" duma solução e a sua aplicação prática pode ser muito longo, deixando antever as questões que nos surgem:
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Hermínia Moutinho
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No dia 14 de Junho, além do Dia Mundial do Dador de Sangue, comemora-se também o dia Nacional de Luta Contra a Dor.
Apesar de ser muitas vezes difícil identificar a dor na criança, sobretudo nas mais pequenas, ela pode na maioria dos casos, segundo especialistas, ser prevenida, tratada ou reduzida graças a medicamentos não dispendiosos e/ou a técnicas não farmacológicas. No entanto, muitas crianças continuam a não receber um tratamento adequado à dor.
É fundamental ter presente que a dor não tratada pode ter efeitos profundos e deixar marcas no desenvolvimento físico e social, além de causar alterações permanentes no sistema nervoso que irão agravar respostas futuras à dor.
Cuidar de uma criança com Dor implica sérios transtornos emocionais e encargos financeiros à família mas, tal como no adulto, a Dor tem um melhor prognóstico quando tratada de imediato. O alívio da dor é um direito de qualquer pessoa e, no que se refere às crianças, esta máxima ganha mais significado quando o sofrimento é causado por ignorância ou receios infundados.
Porque este é também um tema que muito nos sensibiliza, aqui fica o nosso pequeno contributo, para que, como diz o responsável da APED - Associação Portuguesa Para o Estudo da Dor, "o alívio da Dor seja reconhecido como um direito e também como um objectivo geral na melhoria da prestação de cuidados de saúde."
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"Para Assinalar o Dia Mundial do Dador de Sangue , o IPS,IP criou um cartaz no qual agradece e presta homenagem a todos os dadores de sangue que de uma forma voluntária e regular contribuem para salvar vidas humanas." (transcrição do site do Instituto Português do Sangue)
E porque há sempre mais alguma coisa para aprender, fazemos o convite: dê uma volta pelo site do Instituto Português no Sangue!
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Hermínia Moutinho
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Em Maio de 2007 a Comissão Europeia publicou um relatório sobre a opinião dos Europeus em relação à doação de órgãos.
Um exemplo dos dados recolhidos encontra-se na figura seguinte: Estaria disposto a doar os seus órgãos após a sua morte? Em Portugal, 66% dos inquiridos responderam que Sim. Note-se que a média europeia ficou-se pelos 56%.
Consulte aqui o relatório (em Inglês).
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Hermínia Moutinho
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A Susana Carinhas continua "em cima do acontecimento" relativamente à alteração da Lei da Transplantação. Vejam os novos desenvolvimentos no fim do post.
-->10/5/2007
Meus caros amigos e amigas,
Foi com muita satisfação que recebi no dia 09 de Maio de 2007 um email da assessora da Comissão de Saúde da Assembleia da República, Sr. Dr.ª Luísa Veiga Simão, respondendo-me a uma missiva que enviei há mais de 1 ano, questionando a referida Comissão de Saúde acerca da situação em que se encontrava a discussão da Lei de Transplantação de Órgãos e Tecidos de Origem Humana.
A resposta da senhora assessora não podia ser mais positiva e esperançosa para todos os que esperam transplantes! Aqui vai :
"Exma. Senhora
Na qualidade de assessora da Comissão de Saúde, tenho muito gosto em informá-la que a lei relativa à colheita e transplante de órgãos e tecidos de origem humana, que de facto irá permitir que se recorra a dadores vivos fora da família do doente, foi aprovada na Assembleia da República no princípio deste mês, aguardando-se a sua promulgação pelo Presidente da República, após o que será publicada em Diário da República.
Com os melhores cumprimentos
Luísa Veiga Simão"
Pela resposta que me foi enviada - e que eu transcrevi em cima - a solução está agora nas mãos do Sr. Presidente da República.
Esperemos que ele seja célere a promulgar a Lei e que esta entre em vigor o mais rapidamente possível.
-->6/6/2007
Caros amigos
Mais um desenvolvimento no âmbito da Lei da Transplantação de tecidos e órgãos humanos.
Leiam a carta que a Assessora da Comissão de Saúde da Assembleia da República me mandou.
"Exma. Senhora
Na sequência de correspondência anterior, e em nome da Presidente da Comissão Parlamentar de Saúde da Assembleia da República, informo que o Decreto da AR que aprovou a nova Lei relativa à colheita e transplante de órgãos e tecidos de origem humana, que vem alterar a Lei n.º 12/93 de 22 de Abril, foi aprovado em Plenário da Assembleia da República de 26 de Abril e enviado para promulgação do Presidente da República em 28 de Maio. Aguarda-se assim a promulgação deste diploma e consequente publicação em Diário da República.
Com os melhores cumprimentos
Luísa Veiga Simão"
Obrigada, Susana, por continuar a contribuir para o blog e por se manter atenta a esta matéria, tão sensível e importante que é para nós. Continue!
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Ler notícia.
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Ler notícia.
Chamo a atenção para o seguinte parágrafo:
«Durante mais de hora e meia, cada um dos três "concorrentes" tenta convencer Lisa - a quem foi diagnosticado um tumor cerebral e que tem apenas mais 6 meses de vida - de que é a pessoa mais indicada para receber o seu rim. E por várias vezes Patrick Lodiers [o apresentador] pede às pessoas que consultem a página do canal e preencham o formulário de "dador", aumentando a lista de dadores oficiais de órgãos.»
Se é a forma mais correcta de alertar a opinião pública para a escassez de órgãos para transplante, não me posso pronunciar. Mas a verdade é que trouxe este tema para as bocas do mundo a nível internacional e, segundo esta outra notícia, conseguiu angariar 12 mil dadores de órgãos na Holanda, um dos países com uma das taxas mais baixas de dadores na Europa.
Em Portugal, como já referimos anteriormente, a lei da doação de órgãos post-mortem assenta no conceito de doação presumida, significando que qualquer pessoa adquire o estatuto de dador a partir do momento em que nasce.
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A História do menino que tinha uma borbulha
Nada foi deixado ao acaso ou ao improviso para receber o Nuno naquele final de Setembro. Até o mês de nascimento, no fim do Verão, nem frio nem calor, licença de maternidade ampliada pelas férias. Perfeito.
Como perfeita tinha sido a gravidez. Primeiro filho de um casal jovem, ambos saudáveis, não se conhecia também nenhuma doença naqueles quatro, ansiosos por ascender, finalmente, ao estatuto de avós. O seguimento tinha sido meticuloso, com a regularidade aconselhada, todas as recomendações seguidas com rigor, os exames complementares adequados, a vigilância ecográfica habitual dos parâmetros biométricos e morfológicos do feto, a medicação cumprida e as prescrições nutricionais observadas. A normalidade de todos os parâmetros, o passar do tempo sem complicações, a felicidade na face da futura mãe, tornavam serena e deliciosa aquela espera pela chegada do filho e do neto.
O Nuno nasceu de parto eutócico, às quarenta semanas, peso de 3,5 Kgs, 50 cm de comprimento. Chorou de imediato, começou a mamar pouco depois e a observação pediátrica foi como se esperava, o exame físico era perfeitamente normal. Pais e avós, felizes, finalmente “graduados” nas respectivas categorias pelo seu bebé.
Aqueles dias na maternidade são preciosos para a família. Sob o olhar atento e sob a vigilância e orientação dos profissionais, os “recém-graduados”, dão os primeiros passos no desempenho do papel que lhes ocupará a vida daí por diante.
Lá em casa tudo preparado, ensinamentos bem presentes, todo o apoio necessário, a tranquilidade própria das felicidades imensas.
Do programa fazia parte a “picada do pé” e pelo oitavo dia o Nuno foi à maternidade fazer a colheita para o rastreio neo-natal. Os pais estavam felizes, orgulhosos da sua independência no cuidar do Nuno, ansiosos de mostrar isso mesmo aos profissionais.
- Tudo bem?
- Tudo óptimo. Só apareceram ontem umas borbulhas aqui no peitinho mas de resto tudo bem.
- Umas borbulhas? Vamos despir e ver.
Pústulas, no tronco sim ,mas também na face, no couro cabeludo, nos braços.
- Mas ontem só tinha no peitinho.
O aspecto não deixava dúvidas, uma possível infecção estafilocócica, impunha que o Nuno fosse internado para fazer estudo adequado, tratamento por via endovenosa. A sua idade não permitia outra decisão.
Os pais compreenderam que seria algo para alguns dias, estava tudo tão bem, uma pequena complicação.
O grande Hospital meteu medo. Tanta coisa, súbita e inesperada, tanto bebé tão pequenino e frágil, tanta máquina. O Nuno era grande, felizmente, e não estava ligado àqueles aparelhos todos.
- Temos que repetir as análises do Nuno. Discutiu-se na visita…
- Tem uns valores “estúpidos” de ureia e creatinina. Ele está tão bem….
Repetiu-se e confirmou-se. Uma ureia de 156 mg/dl e uma creatinina de 4,89 mg/dl, num recém-nascido são absolutamente invulgares e de inspirar a maior das preocupações em relação à função e sobrevida renal.
Mais exames complementares e diagnostica-se: insuficiência renal crónica congénita por displasia renal. Vistos e revistos os exames pré-natais, liquido amniótico sempre de volume normal, rins presentes bilateralmente, sem dilatações da árvore excretora, bexiga normal.
A médica informa os pais, ciente da gravidade e preparada para a avalanche que estava prestes a desencadear.
- Insuficiência renal? Ureia, creatinina altas? O que é isso? Foi por causa das borbulhas? Não? Então, se não fossem as borbulhas…
- Sim, só o saberíamos dentro de alguns meses quando o Nuno adoecesse com vómitos, ou não crescesse…
- Mas porquê nós? Não pode ser! A negação. A rejeição.
- O que é que eu fiz? Eu segui direitinho tudo o que os médicos disseram! A culpa
- Porque é que o médico não viu isso? A culpa
- O que vai acontecer? O medo. O desconhecido.
- Diálise e transplante? Nesta idade? É possível? Quando? O medo. O desconhecido
A médica colocou aos pais todos os cenários. Questionaram-se em conjunto. Qual seria o menos mau?. Se se tivesse diagnosticado precocemente na gravidez o problema do Nuno, nasceria ele? Se diagnosticado mais tarde, como teria decorrido aquela gestação carregada pela ansiedade da incerteza na sobrevida fetal? E tudo isso comparado com a situação presente?
Mas o Nuno está ali, aparentemente tão bem. Benditas borbulhas, fez-se um diagnóstico mais precoce, pode-se intervir desde já. E há soluções!
- O que podemos fazer? Como podemos ajudar? A aceitação, por final.
A Internet! É isso, a fonte de todas as certezas e de todas as soluções.
A mãe navegou, navegou, informou-se, subscreveu o nephkids, lista para pais de crianças com doença renal moderada por um estudante de medicina, ele próprio transplantado renal. Pais de todo o mundo trocam impressões e informações, ajudam-se, confortam-se.
A médica, meia intrusa, lurker, segue as mensagens do nephkids, diariamente. Aprende a reconhecer o tipo de dúvidas possíveis dos pais, regista o que é útil para outros pais que não navegam em coisa nenhuma. Leu e reconheceu as questões postas pela mãe na lista e a assinalável capacidade de exposição do quadro clínico. Em silêncio, seguia curiosa as respostas, contente com a iniciativa da mãe.
No dia seguinte e em todos os dias seguintes, sorria com uma meia cumplicidade gerada por aqueles encontros nocturnos insuspeitos, antecipando a reacção da mãe à confrontação entre as respostas na Internet e a sua prática.
De todo o mundo e do nosso País a mãe recebeu testemunhos de casos semelhantes ao Nuno. Sim, muitos com passado pré-natal insuspeito. Aquele americano (como é possível, lá?) foi diagnosticado pelos 8 meses quando o peso e comprimento não progrediam. As mães do nephkids tranquilizaram a mãe. Os seus médicos estão a fazer tudo o que deve ser feito…
Confortada com a aprovação no teste da ciberavaliação, a médica escreveu `a mãe, cumprimentou-a pela qualidade da exposição do caso do Nuno e pela atenção recebida da lista.
Desfez o embaraço da mãe, os médicos já estão habituados…a nephkids é uma boa lista, bem moderada, pode e deve continuar, é muito útil. O Messenger? Sim, concerteza, podemos, junte-me lá aos seus contactos. Quem não agradece ao Sr Bill Gates tal benefício? Será que é ele que merece as honras? Nós, “ignorantes anónimos” da informática, desconhecemos os verdadeiros pioneiros como Steve Jobs...
A partir daí, médica e mãe partilham momentos em noites de conversa, que se alarga para lá do que rodeia a saúde do Nuno. No espaço virtual quebraram as barreiras do espaço real, desapareceram a mãe e a médica, ficaram as amigas. Há “Nunos” capazes de coisas assim. Os nossos pequenos doentes, “mini” e às vezes “micro”, podem gerar “macro” atitudes e iniciativas. São os nossos “micro-macro”, quem os não tem no espaço pediátrico?
O diagnóstico ecográfico pré-natal de uropatia malformativa tem cerca de 20 anos. É muito pouco tempo para que esteja totalmente esclarecido se pelo facto de se identificar alterações morfológicas in útero, se consegue determinar a natureza e o significado dessas situações ou mesmo interferir na evolução natural das anomalias detectadas.
Assumem particular relevo, neste contexto, as dilatações da pelve renal, muito frequentes, com uma prevalência aproximada de 4,5 % das gestações. Estas não são uma entidade patológica no sentido restrito mas antes um sinal ecográfico já que podem ser a expressão de um fenómeno transitório ou associar-se a refluxo vesico-ureteral ou obstrução incipiente, entre outros. Sabe-se que menos de 10% destes casos vêm a justificar no futuro procedimentos invasivos designadamente cirúrgicos.
A dúvida em relação aos diferentes e possíveis significados destas dilatações, tem causado e permanece como motivo da maior controvérsia na comunidade científica. Como sempre, o que sobra em dúvidas para os médicos, amplia-se em ansiedade para os pais.
A grande questão actual é saber se se justifica preconizar a realização de exames invasivos, como urografia, cistografia, exames de medicina nuclear, análises, em todas ou algumas destas crianças e ainda submetê-las a profilaxias prolongadas com eficácia ainda não comprovada.
Mais ainda, optar por procedimentos invasivos em crianças totalmente assintomáticas transformadas em doentes à luz dos resultados de exames complementares e envidar por procedimentos invasivos de indicação questionável, quantas vezes por força do marketing científico, de opinião ou mesmo comercial.
O Nuno não tinha qualquer dilatação ecográfica pré-natal e a sua situação é preocupante, das extremas, embora rara. O diagnóstico pré-natal, no seu caso, alteraria o prognóstico? Não. As lesões foram instaladas precocemente in útero e são irreversíveis, como se sabe, pela sua natureza displásica.
Ao contrário, a maior parte das ectasias piélicas não tem significado patológico. Nas que o tiverem a intervenção pós-natal pode interferir na evolução, designadamente pela correcção de obstrução ou diagnóstico e tratamento precoce da infecção urinária, se associada.
Mais do que a dilatação piélica isolada e a sua magnitude, interessa saber reconhecer as dilatações que têm probabilidade de se associar a patologia importante nefro-urológica designadamente as que acarretem risco de compromisso funcional renal como a obstrução. E ter o senso de solicitar o mínimo de exames necessários para o respectivo esclarecimento. Envolver sempre os pais nas decisões como preconiza a Academia Americana de Pediatria na sua secção de Urologia Pediátrica.
Saber e senso, como em tudo.
Os protocolos são úteis. Não podem, todavia, constituir substituto cómodo para o saber e o senso.
Há-os para todas as possibilidades. Estudo pós-natal alargado se as dimensões piélicas forem iguais ou acima de 10mm (protocolo nacional) 15mm (protocolo espanhol) ou 20 mm (reino unido), para já não mencionar as indicações de sim ou não à profilaxia e da duração variável. Os protocolos têm variado ao longo dos anos à medida que a experiência tem conferido segurança e confiança aos clínicos e sempre no sentido de alargar as dimensões para lá das quais se intervém. Como serão daqui por mais 20 anos e qual será o julgamento que nós ou outros, faremos da nossa actuação presente?
Ao estudo indiscriminado, cego, opõe-se e impõe-se a individualização das atitudes com
saber e senso porque, como escreveu Gregório Maraňon
A verdade, a que parece mais firme, não é mais que
o esboço duma verdade mais acabada mas que nunca está completa de todo,
e só assim deve ser interpretada e julgada.
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Helena Jardim
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